

Rio de Janeiro, 13 de março de 2010.
Meu amigo,
Mais um dia não-qualquer-amanhã na sua vida. Como diria o tal Caio F.
Contrariando e reforçando os que te rotularam de “Fábrica de Travestis”, elas vêm mais uma vez! Engenhosas, de roupagem nova, com maquiagem apurada, jóias raras, prontas para avançar o sinal vermelho, descer mais um degrau e pisar de salto XV o solo movediço.
O teatro que você me mostrou há um tempo, falando delas, é movediço; essas meninas afundam o pé na nossa lama, remexendo no substrato que nós, os outros, a roda lança a elas. Para mim, depois da “Flor” e do “Cabaré”, observá-las nas ruas, nas imagens, nos bares, nos palcos, é entrever a mim mesmo. Acho que poucos não sentiram um desejo de tomar uma cerveja gelada, ou quente, com Gisele, e por quê? É fato que o indivíduo se faz na relação com o outro, e me pergunto que diálogo, nós, sociedade, temos ofertado a essas garotas? A “Flor” e o “Cabaré” derrubaram tantos conceitos... O meu receio virou admiração, e quantos outros não se renderam ao encanto da tua “Dama”, e mais que isso com a ambivalência delas, tão presente em nós, ditos contemporâneos. Essas poderosas conjugam não só gêneros, liquificando-os, reprocessam também o individual e o coletivo a cada dia.
Escrevo para agradecer por me mostrá-las com tanta sensibilidade, para agradecer a tua persistência, misto de perseverança e insistência... Amanhã, os cavalos alados da cidade-paranóia ganham o palco em forma de rua para entrar na nossa casa, no nosso quarto, no nosso banheiro, escancarando as janelas do nosso mais íntimo. Que a estadia delas em cada espectador-anfitrião seja da desordem!
Merda!
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Uma vez eu participei de um debate no Teatro Universitário depois de Uma flor de dama em que você falou da convivência com as travestis para a pesquisa. E fiquei pensando, meu Deus, como deve ter sido... Será que elas se sentem respeitadas, talvez algumas pensem 'sai daqui, atorzinho metido, você não sabe de nada'... E será, será que elas sabem que há o sofrer fora delas, que o mundo é injusto e sujo e belo e lindo também para as pessoas que não pensam na roda... será que elas pensam na roda? Quais delas pensam, será que eu penso, será que não é mediocridade minha me ver diferente delas, filho da puta aquele que as olha como superior, etc etc... menino, você desperta umas coisas...
Resumindo, obrigada. Adorei ver o site, ver o trabalho com um formato elegante, e estou adorando ver a continuação dessa putaria. Boa sorte, muita merda pra todos vocês, e vamos ver onde vai dar!
Juliana. Marcadores: Depoimentos
